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  • Adriano Gilberti

Chuva de Outono


Nestes meses do ano, vale uma prática para aguçar os sentidos. O andar crepitante dos pés em um solo atapetado de folhas secas. O chão escolhe a música de repertório. O vento austral oferece o frescor na pele. Os olhos se preenchem pela escala de um tom amarelado. A mente faz associações literárias e remonta as cerejeiras de Tchecov. E o fato de o verde não simpatizar com o outono, deixa a próxima estação mais à vontade para albergar alguns meses naquele local.

Existe uma beleza singular que justifica estes dias: A chuva de outono! Um trio de meses onde as folhas e flores ficam mais melindrosas. Caem à revelia esquecendo que tinham como casa um galho e se transformam naquilo que seria um animal a trocar a pele. E quando, para deleite dos olhos, várias árvores compõem o quadro, o que se vê é uma chuva de folhas bailando no ar no diapasão da brisa que escolhe o ritmo da dança.

Pouco a pouco as folhas vão caindo e mudando o cenário a sua volta. Vão caindo e esperando uma nesga de atenção de um transeunte mais atento. Pois aquele momento, a folha completa um ciclo é dá o seu adeus para aquela vida. Merece o espetáculo da despedida, que os olhos do observador tenham uma pausa de admiração e percebam a beleza do efêmero momento que se esvai.

Talvez o exercício do semáforo possa esclarecer este anseio do outono de ser mais outono e pedir respeito para o que se tem de mais belo nesta estação... Entre os vinte e poucos segundos que separam o motorista da primeira marcha, uma bela visão pode se formar logo à frente. Bastam alguns elementos de sorte. As árvores de canteiro, um vento abusado, quem sabe um Vivaldi tocando, e o mais importante: Os olhos do mundo! Deixar que a Chuva de Outono lhe banhe a alma. Brincar de câmera lenta e observar o quadro que se forma a alguns passos. Pedestres com seus agasalhos e mãos nos bolsos a cruzar a avenida, uma luz que mereça o tom de cinema e uma chuva de folhas caindo e colorindo o asfalto. Assim, quem sabe, com um pouco de lirismo, com ou sem as Quatro Estações do mestre, a imagem possa valer a pena.

Essa chuva charmosa, que não molha o solo, pode deixar um pouco mais úmido o rosto de um passante. Pode deixar surpresa, a criança no banco de trás, que com um sorriso no rosto, aponta com o dedinho acompanhando o percurso da folha em sua última acrobacia. E se o outono, não é tão florido; não é tão ensolarado; não é nem neve ou frio nos ossos; tem o que se espera nesses três meses de folhas soltas: A magia da renovação.

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